Eu já
tinha pensado em escrever sobre o grande amor entre o judeu
austríaco André Gorz e a inglesa Dorine Kair quando
li a bela coluna de sábado escrita por Cláudia
Laitano. Confesso que quase desisti. Depois, pensando melhor, achei
que poderia dizer um pouco mais sobre este casamento que durou
quase 60 anos sem nunca esmorecer literalmente até a morte
de ambos, em setembro de 2007. Dorine sofria de uma doença
degenerativa, e o casal, militantes de esquerda, fez um pacto de
morte. O suicídio entre amantes não é uma
novidade na história. O novo nesta bela
relação entre Gorz e Dorine é a carta que ele
deixou para ela e que constituiu a sua última obra, Carta a
D., lançada pela Cosac Naif. Procurei nas livrarias e
não encontrei. Peguei emprestado e devorei em poucas
horas.
O racional escritor marxista e existencialista, amigo e colaborador
de Jean-Paul Sartre, diretor da revista Tempos Modernos, revela-se
um homem terno e capaz de mostrar abertamente os seus sentimentos,
o seu romantismo em relação à mulher de toda a
sua vida. É um depoimento extremamente importante nestes
tempos de banalidade em que tudo é transitório,
fugaz, imediato. Gorz abre uma relação permanente,
duradoura, permeada de ternura, tanta ternura, que não foi
abalada nem pela velhice, nem pela consciente perspectiva da morte,
escolhida lucidamente por ambos. Trata-se de uma pequena grande
obra que é capaz de calar fundo no íntimo de todas as
pessoas que a lerem. E no meio do texto, belíssimo, o velho
existencialista volta a se revelar: "Eu queria acreditar que
nós tínhamos tudo em comum, mas você estava
sozinha em sua aflição". Mas esta solidão de
Dorine em sua dor, não era irreversível. A morte era
capaz de transcendê-la, principalmente se fosse compartilhada
por Gorz, uma morte escolhida e assumida por ambos. E o
célebre autor de Estratégia Operária e
Neocapitalismo e Socialismo Difícil, o militante de
esquerda, o desbravador das lutas ecológicas não
vacilou. A vida sem Dorine não tinha qualquer sentido para
ele e para ela a própria vida era uma
degeneração cotidiana e um sofrimento permanente. A
morte, então, surge como uma saída. Não uma
fuga da vida, mas como uma ação consciente que
renova, no derradeiro instante, o amor de toda uma
existência. O último ato de André Gorz e Dorine
Keir acaba sendo um notável exemplo de
vida.